

Memória das Águas
A história das enchentes de Iguatu
A terra de água boa, no interior centro-sul do Ceará, assistiu a sua maior bênção se tornar um pesadelo para os moradores e uma ameaça constante quando o rio Jaguaribe elevou seu volume sob a Ponte Metálica. Trens foram paralisados, estradas foram interditadas e casas destruídas com a força das enchentes. Entre os anos de 1960 e 2004, Iguatu registrou quatro inundações que alteraram a rotina dos iguatuenses, principalmente aqueles que viviam às margens do rio das onças.
Famílias ficaram desabrigadas temporariamente, novos bairros foram fundados e a agricultura precisou enfrentar a perda de safras para retomar a produção dos maiores produtos de exportação, o algodão e o arroz. As lembranças das enchentes estão vivas nas memórias de quem enfrentou esses desastres e gravadas na história de vida dos atingidos. Em cada rua inundada, as marcas da força do Jaguaribe.
O tempo e as enchentes
Saímos por causa das enchentes. Nossa casa foi derrubada e a gente foi colocado no Parque de Exposições de Iguatu.
Francisca Holanda
Em 1981, teve outra enchente menor, mas a gente saiu e com poucos dias a gente voltou. Quando foi em 1985, veio uma enchente superior a de 1974.
Roseli Alves
Eu não tirei nada, o rio levou tudo. Levou guarda-roupas, o que eu tirei foi só a roupa do corpo e o resto o rio arrastou.
Luzinete Silva
Eu voltei para casa, fui limpar, e até cobra tinha dentro de casa. Muita lama. Eu deixei um armário e achei que ia recuperar, mas quando cheguei estava só boiando.
Francisca Batista
A cidade das águas
A quadra chuvosa do Ceará, conhecida popularmente por “inverno”, se distribui entre os meses de fevereiro a maio, segundo indica a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). A pré-estação de chuvas acontece entre os meses de dezembro e janeiro, quando as precipitações já costumam aumentar.
Entre o verão, de dezembro a março, e o outono, de março a junho, o Ceará recebe o maior aporte de chuvas. Para regiões com crises hídricas, o “inverno” representa a esperança de rios e açudes cheios. Porém, em alguns anos, a chuva se tornou um pesadelo constante durante meses, quando a profecia do sertão virar mar quase se concretizou.

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Ruas dos bairros Prado e Centro durante as inundações de 1974 em Iguatu. Créditos: Luis Vieira, Larry Barbosa e Nathan Lima
O calendário de chuvas da Funceme aponta os índices de precipitações mensais desde 1974. Os dados deste ano apresentam apenas as chuvas nos meses de abril e maio, fim da quadra chuvosa. Em Iguatu, o bairro mais afetado em todas as inundações foi a Vila Neuma, localizada às margens do Jaguaribe e abaixo da ponte metálica. A população do bairro assistiu a destruição de suas casas e ruas nas quatro enechentes relatadas nesta reportagem.
Chuvas registradas nos anos de enchentes (mm)
Fonte: Calendário das chuvas da Funceme
Em abril de 1974, choveu 395 milímetros (mm), quando o esperado era de 189.2 mm. Já em maio, as chuvas deram trégua, atingindo 58 mm, abaixo da média mensal de 98mm. Francisca Holanda, conehcida como Chica do Padre, viu sua casa afundar nas águas do Jaguaribe em 1974, quando morava na Vila Neuma.
"Nós saimos por causa das enchentes. Nossa casa foi derrubada e a gente foi colocado no Parque de Exposições. Ficou três famílias em cada galpão. Eu estava grávida na época, tivemos que separar um espaço só para a minha família, e quando foi com uma semana, houve uma enchente lá também", relatou Francisca, que após isso, mudou-se e construiu o bairro Vila Centenário, fundado em 1974 em razão das enhentes.
Na pré-estação chuvosa de 1984, em dezembro, as chuvas em Iguatu alcançaram 25 mm, menor do que o esperado de 55.4 mm. Já em janeiro de 1985, ainda antes do período de chuvas, as precipitações se elevaram consideravelmente, chovendo 308 mm, quando o esperado era de 142.5 mm. Seu Roseli Alves, morador da rua Manoel Camilo, na Vila Neuma, abrigou-se na casa de parentes . "Em 85, a enchente foi superior a de 74. Teve que as pessoas saírem para diversos bairros de Iguatu".
Durante toda a quadra chuvosa daquele ano, as chuvas foram acima da média esperada para cada mês. Em fevereiro, choveu 376 mm ante 161.6 mm aguardados. Março teve 374 mm de precipitações, enquanto que a média mensal era de 221.4 mm. Abril foi o mês mais chuvoso daquele ano, atingindo 406 mm, quando o esperado era de 189.2 mm. Em maio, foram registrados 218 mm, acima da média de 98 mm.
Depois de 21 anos, a pré-estação de 2004 também demonstrou a força do “inverno” daquele ano. Em dezembro de 2003, choveu 37.2 mm, enquanto que em janeiro de 2004, o volume de chuvas saltou para 412 mm, quando o esperado era de 142.5 mm.
Francisca Batista estava com uma criança de colo quando precisou ser retirada de casa para se abrigar em uma creche na Vila Neuma. "Nós fomos para uma antiga creche. Ficamos lá uns 15 dias, a creche ficou toda ocupada", declarou. Felizmente, toda sua família conseguiu abrigo. Francisca conseguiu retirar alguns móveis antes da destruição da água. Outros, foram levados pela correnteza.
Na quadra chuvosa de 2004, apenas o mês de abril ficou abaixo da média de precipitações. Fevereiro registrou 274.5 mm, acima da média de 142.5 mm. Em março, choveu 258 mm, ante 221.4 mm aguardados. Abril, único mês com chuvas abaixo do esperado, teve 96 mm de precipitações, com média mensal de 189.2 mm. Em maio, as chuvas aumentaram de volume, atingindo 124 mm, com o esperado para o mês de 98 mm.

Rua dos Inocentes, no bairro Prado, com casas inundadas durante a enchente de 2004. Crédito: Josefa Iara
Os índices pluviométricos de cada ano de enchentes permitem a análise da quantidade de chuvas apenas no município de Iguatu. O rio Jaguaribe, que corta o Ceará, recebe chuvas de todas as cidades banhadas por suas águas. Em razão disso, o volume do rio aumenta e pode provocar inundações. Nos anos de “invernos” rigorosos, não só Iguatu, mas outras diversas cidades à margem do Jaguaribe foram inundadas pelas águas. A cada chuva nesses municípios, surge o medo da força das águas do rio das onças.
Terra de água boa?
Quatro enchentes, quatros histórias diferentes e as lembranças das inundações do Jaguaribe em Iguatu, no Ceará.
Rio das onças
O rio Jaguaribe, de nome indígena, é o maior do Ceará, com cerca de 633 quilômetros de extensão, desaguando no Oceano Atlântico entre as cidades de Aracati e Fortim, no Litoral Leste. Atravessando 80 municípios dos 184 do Ceará, o rio das onças ocupa mais da metade do Estado, dividido em Alto, Médio e Baixo Jaguaribe de acordo com a proximidade dos municípios da nascente.
Em Iguatu, a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh) monitora 10 rios e 24 açudes na Bacia do Alto Jaguaribe em 24 municípios do Estado. O Coordenador do Núcleo de Operações da regional Iguatu, Cássio Sales, explica qual a capacidade aquífera da região. “A bacia do Alto Jaguaribe detém de uma área de drenagem de 24.639 km², ocupando 16,56% do território do Estado do Ceará”. O Alto Jaguaribe possui capacidade de acumulação de águas superficiais de 2.792.563.000 bilhões de m³.
Dados da Bacia Alto Jaguaribe

Fonte: Cogerh
A Bacia do Alto Jaguaribe compreende os municípios de Acopiara, Aiuaba, Altaneira, Antonina do Norte, Araripe, Arneiroz, Assaré, Campos Sales, Cariús, Catarina, Farias Brito, Icó, Iguatu, Jucás, Nova Olinda, Orós, Parambu, Potengi, Quixelô, Saboeiro, Salitre, Santana do Cariri, Tarrafas e Tauá.
A pesquisa “Expedição científica ao alto curso do rio Jaguaribe (Ceará): identificação da nascente do possível maior rio temporário do mundo”, desenvolvida pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pela Cogerh, localizou a real nascente do Jaguaribe na Serra das Pipocas, entre Tauá, Pedra Branca e Independência.
Anteriormente, a nascente era identificada na Serra da Joaninha, em Tauá. Com auxílio de equipamentos como GPS, drones e Estação Total, foi possível identificar de onde surgiam os primeiros filetes de água do rio das onças. As cinco explorações em campo foram realizadas entre os anos de 2017 e 2019 e publicadas em 2020 no Caderno de Geografia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC- Minas). Até a altura de Iguatu, desaguam no Jaguaribe as águas dos rios Trici, Javelas, Puiú, Jucá, Condado, Conceição, Bastiões e Cariús. Além deles, 20 reservatórios vertem águas que chegam ao município em períodos de fortes chuvas.
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As águas dos afluentes do Alto Jaguaribe chegam em Iguatu nas inundações de 2004. Crédito: Josefa Iara
O Jaguaribe também é conhecido por uma característica curiosa: ele já foi considerado o maior rio seco do mundo. Por ser um rio temporário, que geralmente só possui água em seu curso no período chuvoso, o rio das onças ficou seco por diversas vezes, principalmente em épocas de secas. Em contrapartida, nos “invernos” fortes, o rio subia tanto de volume a ponto de invadir casas, comércios e estradas. Em 1960, mais de 3,5 bilhões de metros cúbicos (m³) de água do açude Orós, terceiro maior reservatório do país, foram despejados no Jaguaribe, conforme consta nas reportagens da época produzidas pelo O POVO.
Atualmente, o rio Jaguaribe é perenizado, ou seja, recebe águas de reservatórios, o que permite a manutenção do curso das águas. Na década de 1980, a inauguração da válvula dispersora do Orós auxiliou nessa função.
Súplica do Jaguaribe
Manchetes de jornais destacam as enchentes do Jaguaribe em Iguatu por seis décadas. Em cada inundação, bairros devastados, casas destruídas e pessoas desabrigadas na terra de água boa.
Crônicas das enchentes
O POVO, jornal impresso mais antigo em circulação no Ceará, noticiou as enchentes de 1960, 1974 , 1985 e 2004 em Iguatu e outros municípios do Estado atingidos pelas águas do Jaguaribe. Repórteres estiveram na terra de água boa e assistiram a devastação das enchentes nos bairros próximos ao leito do rio
Capas de destaque e matérias especiais sobre a situação de calamidade em Iguatu informaram o Ceará sobre a gravidade das enchentes e as medidas emergenciais que políticos e a população tomaram para diminuir os impactos dos desastres.

Iguatu em páginas

Ceará - O Município e a Cidade de Iguatu (1925)
Hugo Victor

Reminiscências e Perspectivas (1984) Sabino Antunes

Iguatu Memória - socio - histórico -econômica (1985)
Alcâtara Nogueira
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Iguatu - História (1998)
R. Batista Aragão

A Estrada de Ferro de Iguatu - 100 anos (2010)
José Hilton Lima Verde

Iguatu: Pelos Novos Caminhos da História (2011)
Wilson Holanda Lima Verde

Vida e Obra de Dr. Manoel Carlos de Gouvêa (2016)
Francisca Aureny Alves Bezerra

Bairro São Sebastião (2016)
Cícero Cruz
Experiência da repórter
Iguatu, minha cidade natal, é rodeada de histórias apagadas, que existem apenas em livros pouco acessíveis. Desde a infância, tinha curiosidade em descobrir mais sobre as histórias que meus familiares e professores contavam sobre um Iguatu que parecia não ser a mesma cidade que eu conhecia como a palma da minha mão. Periodicamente, em tempos de chuvas, as histórias das enchentes vinham à tona. Às vezes, de forma premonitória, como se fosse o destino da cidade afundar nas águas do Jaguaribe. Outros relatos eram em tom de nostalgia, ainda que tenha sido um evento de devastação de casas e proliferação de doenças.
Usei a internet para descobrir mais sobre a história dessas enchentes. Encontrei vídeos, relatos e algumas reportagens que abordaram o que aconteceu em 1974, 1985 e 2004. Mas será que só foram essas enchentes? Não consegui achar essa informação. Na adolescência, busquei livros em bibliotecas públicas e particulares para entender melhor como Iguatu tinha passado por esses momentos históricos no século XX. As tentativas foram frustradas, mas consegui descobrir um pouquinho com cada adulto que eu conversava.
Depois de anos, já na faculdade de Jornalismo, essa história de enchente volta ao meu pensamento e a investigação é iniciada novamente. Parti dos relatos da minha família para encontrar outras personagens que tivessem histórias sobre esses eventos. E assim descobri mais duas enchentes: 1924 e 1960. Fiquei me perguntando porque ninguém nunca tinha documentado essas histórias, essa periodicidade dos desastres ambientais. Nos relatos, descobri que os bairros ao longo do leito do rio Jaguaribe, como a Vila Neuma e o Prado, foram destruídos com a força das águas invadindo casas e comércios. O Centro da cidade também sofria com o avanço das águas. As duas forças motrizes do município, a agricultura e o varejo, foram interrompidos em tempos de cheias. A cidade precisava aguardar o volume das águas baixarem e se reerguer com o que sobrou.
Com muito esforço, consegui exemplares de livros sobre a cidade com um colecionador. Comecei a busca nas páginas com empolgação, esperando achar mais relatos, mais dados históricos sobre as enchentes. A expectativa foi frustrada a cada livro finalizado. Apenas algumas frases ou parágrafos tratavam das enchentes, e maior parte deles sem personagens que tenham sido atingidos pelos desastres.
A quem interessava contar sobre as enchentes? Com as leituras, percebi que as “grandes personalidades”, como políticos, médicos e comerciantes, ganhavam destaque na história escrita do município. Quase sempre, os eventos categorizados como “importantes” estavam relacionados a estes benfeitores. As enchentes, por terem atingido principalmente bairros marginalizados, não figuram como acontecimentos históricos importantes para os autores e guardiões da memória de Iguatu. De fragmento em fragmento, frase a frase, reuni o que foi escrito sobre as enchentes numa tentativa de organizar essas memórias.
Conversando com moradores da cidade, descobri pessoas que perderam tudo nas inundações. Visitei a Vila Neuma, o Prado e a Vila Centenário, ouvindo histórias de quem ainda não esqueceu a força do Jaguaribe, décadas após as enchentes. Com a ajuda do O POVO, pude pesquisar em páginas de jornais e manchetes sobre as enchentes, acompanhando as reportagens que informavam sobre o número de desabrigados, casas destruídas e ações governamentais para amparar os mais afetados.
As fotografias utilizadas nesta reportagem foram obtidas no grupo "Iguatu Antigo", página do Facebook que reúne conterrâneos de Iguatu. As enchentes frequentemente são assuntos de debate e de lembranças dos membros, que compartilham fotos e relatos desses períodos.
A Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e Fundação Cearense de Metereologia e Recursos Hídricos (Funceme) arquivaram informações sobre as bacias do Jaguaribe e índices pluviométricos dos anos de enchentes que auxiliaram a ilustrar em números as inundações em Iguatu.
A internet democratiza o acesso a informações. Por isso, esse trabalho é uma curadoria de relatos e imagens sobre a história das enchentes de Iguatu, construído a partir dos depoimentos de quem viveu as cheias e do que está disponível em livros, página de jornais, redes sociais e sites sobre a revolta das águas de Iguatu.
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Apuração, pesquisa, reportagem e montagem do site
Beatriz Silva
Orientação
Ligia Coeli e Juliana Lotif
Identidade visual
Admilton Alves
Arquivo do Jornal O POVO
Roberto Araújo
Esta reportagem é um Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA)




















